terça-feira, 30 de maio de 2017

As narrativas distópicas do Século XX: características comuns

Dando sequência às atividades do curso "Sob a égide do totalitarismo e autoritarismo: a literatura como reflexão", neste post nos dedicamos a algumas características das narrativas distópicas. Sobre o curso vocês podem ver seus objetivos aqui, e também conferir o texto-resumo anterior em que discutimos o contexto social a que estas publicações estavam inseridas. Aproveitamos para também convidá-los a ler este material sobre crítica cultural e sociedade que pode colaborar com nossas interpretações, 

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Resumo
As narrativas distópicas do Século XX: características comuns

Por Douglas Eralldo



A este ponto do curso “sob a égide do totalitarismo e autoritarismo: a literatura como reflexão” já temos uma ideia do contexto social e histórico no qual uma série de publicações consideradas como distopias foi florescendo ao longo do Século XX, obras que em geral são colocadas a fim de classificação como pertencentes ao gênero distópico. Sobre isto precisamos, logicamente, levar em consideração toda a extensa discussão teórica acerca dos gêneros literários que perdura há muitos anos e nos remete às reflexões de Platão e Aristóteles que já discutiam as classificações das peças literárias. Hoje em dia a flacidez, e mesmo a possibilidade do fracasso dos gêneros é uma discussão presente e que deve ser observada. Dito isso, não custa observar Angélica Soares:

A teoria dos gêneros é vista como meio auxiliar que entre outros, nos leva ao conhecimento do literário, mas nunca deve ser usada para valorização e julgamento da obra. Por outro lado, o fato de um texto apresentar características dos gêneros, por si só, não nos leva a localizá-lo na literatura.

            Além disso, Soares relembra que “os traços dos gêneros estão em constante transformação; portanto, no ato de leitura, nos devemos conduzir abertamente pelas mudanças e não por características fixas” o que estabelece um diálogo com José Castelo ao dizer que “o Século XX se encarregou de fracionar e desfigurar os gêneros literários” e demonstrar que “hoje, já não podemos falar, com a mesma segurança, da tipologia do romance, já que os limites do romance histórico, o autobiográfico, o picaresco, o de formação etc., são cada vez mais flácidos”. Portanto, não pecamos aqui pela não observação das questões dos gêneros literários, contudo não as negamos, especialmente pelo auxílio no estabelecimento de um conjunto de obras a reunir elementos comuns capazes de constituir um gênero, ou, pelo menos, serem reconhecidos de tal forma como é o caso das:

            Distopias

           
            Nessa perspectiva dos gêneros literários, conforme observamos Kopp:

 Foi durante o século 20 que a literatura distópica se consolidou, tomou corpo, ganhou notoriedade e se firmou como uma das marcas desse tempo. Houve condições para isso, para a emersão de uma forma de pensar, imaginar e escrever sobre o futuro como um tempo no qual as coisas se tornariam piores.

            Todavia, é preciso levarmos em consideração que o termo distopia já fora construído por John Stuart Mill num discurso no parlamento da Irlanda em 1868. Ao cunhar a expressão, Mill já colocava-a em antítese à utopia, contraste semelhante que Erich Fromm utiliza em sua leitura de 1984, de George Orwell ao dizer que “as utopias negativas expressam o sentimento de impotência e desesperança do homem moderno assim como as utopias antigas expressavam o sentimento de autoconfiança do homem pós-medieval”. Entretanto, ainda que utopia e distopia coloquem-se então como antítese, não podemos desprezar os apontamentos de Fromm ao dizer que ambas surgem como crítica social ao momento que cada movimento está inserido. No caso das distopias, geralmente os estudos apontam para seu surgimento como gênero a partir da publicação do romance Nós, do escritor russo Yevgeny Zamyatin. A obra começou a ser escrita em 1920 e foi publicada em inglês em 1924. Por causa desta peculiaridade o romance foi chamar atenção das autoridades soviéticas apenas após os anos 30, o que veio causar uma série de perseguições ao autor depois disso. Entretanto não se poderá pensá-lo [o romance] como uma crítica ao Stalinismo, pois como podemos observar, sua publicação dá-se antes do regime totalitário de Stálin, porém este consegue antecipar uma visão dos caminhos sociais ao apresentar “uma antevisão brilhante dum sistema que quis dar aos homens a felicidade (a organização) em troca da liberdade”. Considerado então precursor do gênero (e aqui não desprezamos outras publicações anteriores que já continham o caráter distópico, como comumente aceito por estudiosos como O Tacão de Ferro, de Jack London), Nós geralmente é relacionado junto de outras obras consideradas pertencentes ao gênero distopia. É o caso das obras constantes das leituras sugeridas para este projeto, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932), 1984, de George Orwell (1949) e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953). No caso de narrativas brasileiras, destacamos neste conjunto a obra de Ignácio Loyola de Brandão, Não Verás País Nenhum (1982). É a este conjunto de obras sugeridas que buscaremos observar no que se aproximam e no que se distanciam uma das outras de modo a considerarmos que participam de um mesmo gênero. Cada uma delas propõe diferentes olhares sobre “o distópico” e foram publicadas em diferentes décadas sendo que avançam e se complementam entre si. Vale ainda destacar que não se excluem aqui outras publicações dentro deste gênero ou semelhantes, contudo é este conjunto que compõe os principais traços significativos e característicos das narrativas distópicas. Sobre a fertilidade dos textos distópicos podemos ainda lembrar Booker que em seus estudos sobre as distopias apresenta uma ampla relação de obras dentro do gênero. Mas para efeito destas reflexões, a observação dos elementos presentes no conjunto referido dar-nos-á um panorama capaz de captar a essência do texto distópico, ainda que por meio de reflexões iniciais. Dito isto, a partir de agora pretendemos por meio da leitura destas obras respectivas delinear alguns dos traços relevantes ao que veio ser conhecido como distopia, mas que também por vezes é chamada de utopia negativa ou então de antiutopia. Vejamos então alguns destes elementos comuns.

            O Estado Totalitário

            Não se ignora aqui os regimes tirânicos, déspotas, absolutistas etc. que precederam o Século XX, porém como revela Hannah Arendt em “As Origens do Totalitarismo”, o Estado Totalitário que viemos a ter como referência dá-se com o regime stalinista a partir de 1930 e com o nazismo de Hitler a partir de 1938. Não deixa de ser interessante portanto a capacidade dos autores e antecipar ou apresentar tendências de movimentos sociais que podem ou não a ser efetivados na “prática real”. É o caso de Zamyatin e Huxley que apontam para isso antes mesmo da efetivação dos estados totalitários mais conhecidos de nosso percurso histórico. A existência de um estado totalitário é, aliás, elemento central a todas as narrativas distópicas que descobrem uma preocupação pertinente e presente na arte e nos pensamentos de seus autores. Atribui-se a uma cruzada [e preocupação] de George Orwell contra o totalitarismo a escrita de seu último romance, 1984. Aldous Huxley também expressou semelhante preocupação em um prefácio para seu Admirável Mundo Novo, em 1946. Fazendo ele a importante observação de que “não há, por certo, nenhuma razão para que os novos regimes totalitários se assemelhem com os antigos” ainda assim ele coloca que “é provável que todos os governos do mundo venham a ser quase que completamente totalitários” ao apontar para uma trégua momentânea de reacomodação de forças no pós-guerra. Se esta “previsão” de Huxley até então não veio a se confirmar de forma prática não podemos negar também que o autoritarismo presente mesmo nas tidas “maiores democracias” do mundo e o recente e turbulento momento mundial com o ressurgimento de pautas nacionalistas e extremistas não invalidam as preocupações do autor, que em sua narrativa nos apresenta um estado totalitário distinto das referências históricas e de outras publicações do gênero, mas não menos eficiente que o totalitarismo imposto pela força. Dentre os autores distópicos, poderíamos dizer então que Huxley é o que apresenta melhor a linha tênue entre a utopia e a distopia.


            No caso das leituras citadas a existência de um estado totalitário une-se intrinsecamente, ainda que cada um destes estados totais possuam suas particularidades. No romance inicial do gênero a presença de um estado totalitário esta representada pelo Estado Único. Nesse estado toda e qualquer individualidade humana foi apagada e não raro o conceito é apresentado com escárnio pelo narrador D-503, que narra a obra a partir de entradas que assemelham-se a um diário. Não temos porém a consciência plena do tamanho deste estado, contudo a percepção é de tratar-se de uma gigantesca metrópole (embora logo no começo D-503 diga “há mil anos, os nossos heroicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao domínio do “Estado Único”)  onde todos são felizes e trabalham pela coletividade. Neste estado em que o indivíduo é negado e a identidade difusa, sua população não passa de um conjunto de números para o Estado. A estrutura contém sua hierarquia cujo cume é a liderança do Benfeitor, sempre reconduzido ao posto no Dia da Unanimidade. Aos números se aplicam uma série de restrições e limitações, entretanto nenhuma destas percebidas pelos indivíduos cuja adesão ao Estado totalitário é plena. Contrastando com as limitações, há a política da transparência em que ninguém nada esconde do Estado e onde cada um deve denunciar desvios de conduta. Tais questões permitem a existência deste Estado Único vigilante mas que cada um dos números dá sua contribuição racional para o estado, como o próprio narrador D-503, um engenheiro construtor de um grande foguete, o Integral. Em sua narrativa, as entradas de D-503 miram narratários doutros planetas contando em seu tempo presente “as maravilhas do Estado Único”. Isto, entretanto, sofrerá seus revezes. Em parte por causa do mundo externo, o que há do outro lado do muro verde, estrutura que coloca os habitantes do Estado Único de certa forma sob uma redoma. Segundo estudiosos da literatura, tanto Orwell quanto Huxley foram leitores de Zamyatin, e no caso de Admirável Mundo Novo a existência de um estado único é retomada com a ideia do Estado Mundial num mundo divido em diferentes regiões administrativas. Há na construção deste estado totalitário de Huxley uma grande proximidade com a obra utópica de Thomas Morus, Utopia. Assim como na Ilha há por parte dos habitantes do admirável mundo novo a busca pela felicidade e principalmente a necessidade produtiva de seus habitantes. No caso do Estado Mundial, um estado em que a reprodução humana é controlada e dividida em castas de acordo com a necessidade funcional do Estado, mesmo o gosto e a admiração pelas paisagens e pelas flores serão restringidos pela hipnopedia durante a incubação. Num estado regido pela produção em massa e pelos ideais pressupostos por Henry Ford o diretor do D.I.C nos lembra que “as flores do campo e as paisagens, advertiu [o diretor], têm um grave defeito: são gratuitas. O amor não estimula a atividade de nenhuma fábrica”. Eis aí outra característica fundamental do Estado Mundial de Huxley, a necessidade permanente de consumo. Mas do contrário do Estado Único de Zamyatin cujo controle estatal pela repressão é mais evidente, no caso do Estado Mundial e sua busca pelo prazer constante (e quando esta busca estivesse em risco haveria ainda o Soma, uma droga capaz de garantir a felicidade sempre), a eficiência do Estado Mundial de Huxley segue os princípios da fala do mesmo Diretor quando dos primeiros capítulos do romance diz que “governar é deliberar, e não atacar. Governa-se com o cérebro e com as nádegas. Nunca com os punhos”. Este trecho parece-nos convergir para a própria visão de Huxley sobre a eficiência de um estado totalitário “um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão”. Este é um princípio que acaba regendo todo o Estado de Admirável Mundo Novo cujos pilares básicos são Comunidade. Identidade. Estabilidade. Se por um lado, na obra de Huxley o Estado não limita os prazeres o contrário dá-se na Oceânia, o Estado totalitário regido pela figura do Grande Irmão, em 1984. Neste romance o Estado é controlado pelo Partido e vive às turras com os Estados externos, a Eurásia e a Lestásia, estando em guerra ora com um, ora com outro, de acordo com as necessidades do Grande Irmão. Estruturado sob a égide da tríade guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força o Estado de 1984 é plenamente vigilante e eleva-se a partir de uma série de restrições humanas e sob permanente período de conflitos, o que dá segurança e permanência ao Estado totalitário. Assim como os demais Estados distópicos, o de 1984 possui sua estrutura hierarquizada e distribuída entre os integrantes do Partido através dos ministérios, da Verdade, responsável pelas notícias e entretenimento, o do Amor, responsável por manter a lei e a ordem [e pela tortura] e o da Pujança, responsável pelas questões econômicas. Sobre o poder do Estado de 1984, creio que algo nem sempre discutido, mas importante, é a informação dada é consciência de Winston Smith que ao começar escrever seu diário estaria complicando suas existência; “não que isso fosse ilegal (nada era ilegal, visto que já não existiam leis)”. Aliás, o alcance do Estado em 1984 é tamanho que cristaliza a própria noção de pensamento-crime, o que por si só será uma punição a Winston, sempre atormentado por sua inodortoxia.
            Estes são possivelmente os três Estados totalitários sempre lembrados na perspectiva do gênero distópico, contudo vale destacar aqui o romance brasileiro de Ignácio Loyola de Brandão Não Verás País Nenhum que também apresenta sua visão de Estado totalitário, e que no seu caso não se ausenta das questões e dilemas brasileiros. O Estado totalitário desta distopia nacional nos parece bastante sintomático às questões sociais nossas especialmente por traduzir [e transformar] seu Estado totalitário numa palavra mais brasileira impossível. “Esquema”. Como característicos aos esquemas, a hierarquia do Estado de Brandão é envolta por uma névoa. Não há um rosto para o Esquema, ao mesmo tempo que todos participam dele, mesmo o protagonista Souza, integrante mais baixo de sua hierarquia, seu topo da pirâmide, porém, é desconhecido. Temos então no “Esquema” um sistema tomado por uma corrupção sistêmica num país loteado por multinacionais, desértico e árido em que a ausência de recursos naturais como a água praticamente impossibilita sobrevivência. Aliás, tentar sobreviver é a única coisa que resta neste Estado em ruínas, mas cujas elites do “Esquema” permanecem inalcançáveis. A desolação é tamanha que o protagonista Souza a certa altura comenta “fomos nos habituando de tal modo que passamos a pactuar com a tragédia, aceitando-a como cotidiano”. Além disso, outra questão de interessante contraste entre a publicação brasileira e as demais é que se em Admirável Mundo Novo e principalmente Nós a coletividade trabalha para a anulação do indivíduo em Não Verás País Nenhum o protagonista Souza aponta para uma das razões de força do “Esquema”, o individualismo. “Para massificar, ao mesmo tempo que isolaram cada pessoa em si, tornando-a ferozmente individualista...”
            Nos exemplos até aqui apresentados percebemos a presença clara e manifesta de um Estado totalitário, o que não é bem o caso de Fahrenheit 451. Este por sinal, aproxima-se mais de outra obra geralmente tida como distopia, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Em ambas, os protagonistas estão imersos numa ação que não abre ocontexto geral do Estado a que estão inseridos, contudo o autoritarismo e o totalitarismo permeiam a estrutura social presente neles.  No caso de Fahrenheit 451 temos provavelmente os Estados Unidos pós anos 1990 e depois de terem vencido duas guerras atômicas, e ainda que não tenhamos nele um Estado totalitário, no mínimo caminha para tal. Além disso, esta diferença com as demais obras facilmente pode explicar-se justamente pela elasticidade dos gêneros, pois há no livro de Ray Badbury outros elementos que aproximam-no das demais distopias, como no que diz respeito ao:

            Controle Estatal
    


            Em Fahrenheit 451 temos exemplos de uma série de formas de controle por parte do Estado. A mais evidente e marcante para a estrutura do romance é a destruição do conhecimento dada a partir da função dos bombeiros neste romance: queimar livros. Esta é a função do protagonista Guy Montag casado com Mildred, esta que evidencia o sucesso do controle estatal através da alienação conseguida por meio do entretenimento de massa, pobre de qualquer reflexão. Mildred assim como a grande parte da sociedade de Fahrenheit 451 permanece absorta diante das imensas televisões instaladas nas paredes dos lares. Temos aqui um diálogo forte entre Bradbury e Huxley, pois ambos trazem para as distopias a reflexão de como as tecnologias podem vir a ser utilizadas pelos Estados totalitários ou autoritários. No romance de Bradbury isso ainda se amplifica na fuga de Montag, ao ser perseguido por um sabujo mecânico e acompanhado por uma câmera portátil que transmite a ação ao vivo. A ação espetaculosa, aliás, é um dos recursos dos filmes exibidos nos Cinemas Sensíveis de Admirável Mundo Novo cuja tarefa é justamente entreter seus habitantes de modo que os níveis de felicidade nunca caíam. Todavia o auge do controle do Estado Mundial de Huxley começa já durante o processo de fabricação dos seres humanos e as diversas castas necessárias ao Estado. O condicionamento se dá ainda durante a incubação por meio da hipnopedia, indução feita através do sono. Aliás, se uma coisa pode-se dizer do Estado Mundial é que este sempre foi muito precavido e mesmo com o condicionamento hipnótico, em sua estrutura há ainda o Colégio de Engenharia Emocional com a função de estudar e executar formas da manutenção da “felicidade” que em último caso seria garantida pelo Soma. O controle por condicionamento hipnótico,  voltará a ser discutido pelo Processo Ludovico em Laranja Mecânica estabelecendo a lavagem cerebral com forma de controle [e cura] da violência. Na verdade o que não faltam às narrativas distópicas são as múltiplas formas de obtenção do controle por parte dos Estados totalitários. Se em Admirável Mundo Novo sua população ama sua escravidão, ou então como D-503 de Nós que espanta-se com os desejos de liberdade dos povos primitivos a ponto de não compreender tal irracionalidade como quando diz “muitas histórias incríveis dos tempos em que as pessoas viviam numa estado livre, isto é, desorganizado, selvagem”. Notemos que até ser posto diante certos acontecimentos D-503 é um adepto do Estado a que participa, incapaz de perceber qualquer outra forma política. Já em 1984 a adesão ao Estado totalitária dá-se pelo contrário, não pelo desejo e aceitação, mas sim pelo medo e pelas restrições dos desejos, como no caso da Liga Juvenil Antissexo, pelas regras, pela ausência de leis etc. No caso de Orwell, o medo inclusive justifica-se diante os diversos meios de vigilância do Grande Irmão. No caso do livro, já com a referência nazista presente uma das formas mais eficientes de ser denunciado era por meio das crianças, os Espiões cujo faro para inodortoxia era infalível a ponto de os pais temerem os próprios filhos mais que qualquer outra coisa. A espionagem e a delação, aliás, são instituições totalitárias nas narrativas distópicas. Em Não Verás País Nenhum a qualquer momento você pode ser denunciado a um Civiltar, o que nunca é uma boa ideia. Além disso, há os fiscais, que pode ser qualquer um no meio da multidão. Sem falar que os fiscais são muitos. A possibilidade e o dever da delação imediata aos guardas do Estado Único em Nós também era uma das garantias do regime. Em termos de vigilância, aliás, é interessante esboçar a relação do romance de Zamyatin com o de Orwell. No primeiro o Estado observa sua população por meio das transparências dos vidros que compunham toda edificação de modo que nenhum número tinha algo a esconder do Benfeitor e do Estado. Já em 1984 temos o uso da tecnologia como suporte ao controle totalitário através das teletelas, as quais estavam sempre atentas a qualquer movimentação dos integrantes do Partido. Para além das ferramentas de controle do Grande Irmão há de se levar em conta ainda o permanente estado belicoso de Oceânia fazendo com que sempre houvesse “o inimigo do momento [que] sempre representava o mal absoluto” e exigia um líder capaz de enfrentá-lo. Entretanto, a principal forma de controle estatal do Grande Irmão será certamente a propriedade da verdade. “Se o Partido era capaz de meter a mão no passado e afirmar que esta ou aquela ocorrência jamais acontecera – sem dúvida isso era mais aterrorizante do que a mera tortura ou a morte” declara o narrador. A lógica presente está num dos lemas do Partido “quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”. Para escapar desse tipo de controle era preciso “uma série interminável de vitórias sobre a própria memória” como ocorre com o protagonista Winston Smith, entretanto o risco disso era o de logo ser vaporizado e ter sua existência simplesmente eliminada de qualquer registro. Sem falar que, escapando disso tudo seria preciso a qualquer habitante da Oceânia ainda manter a preocupação com a Polícia de Ideias a quem qualquer pensamento-crime não passaria despercebido ainda que não se houvessem leis com as quais seguir. Soma-se a todos os mecanismos já expostos aqui, ainda as restrições de mobilidade das populações dos Estados ficcionais aqui observados. Em Nós há todo um controle por cupons de autorização, inclusive os cupons cor-de-rosa com os agendamentos para o Dia Sexual que é também regulado pelo Estado Único. Fichas também são necessárias para se locomover na São Paulo apocalíptica de Não Verás País Nenhum em suas ruas abarrotadas de gente e cadáveres, assim como fichas para trocar por água, estas muito valiosas para dar-se um jeitinho dentro do Esquema. Tendo isto em mente, o que podemos observar então é que as respectivas obras compartilham a existência de Estados totalitários que mantém o controle por meio de diversas e eficientes formas de controle, e que em última instância haverá ainda a possibilidade da lobotomia, como o desfecho de Nós, retomando a prática do controle mesmo que “mecânico” nas mentes dos indivíduos e deixando claro neste tipo de literatura que a supremacia tem de ser sempre do Estado.

            Portanto, podemos observar até aqui algumas características comuns aos romances observados, mas que não se encerram neste post, pois pretendemos ainda observar outros elementos comuns pertencentes às narrativas distópicas como seus aparelhos de propaganda, a ausência de heróis, visto que os protagonistas de tais obras fogem deste arquétipo, e também a supremacia destes Estados sobre seus indivíduos, o que a princípio deveria nos soar como alerta para nosso presente.


Bibliografia

ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo: São Paulo, 1998.
BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451: Globo de Bolso. Rio de Janeiro, 2014.
BRANDÃO, Ignácio Loyola. Não Verás País Nenhum: Global Editora, São Paulo, 2012.
BURGESS, Anthony. Laranja Mecânica: Aleph. São Paulo, 2015.
CASTELO, José. O fracasso dos gêneros. In: _____. A literatura na poltrona. Rio de Janeiro: Record, 2007.
FROMM, Erich. posfácios: in: 1984, de George Orwell. Companhia das Letras: São Paulo, 2009.
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo: Biblioteca Azul, 2016.
KOPP, Rudinei. Literatura e Mídia na Literatura Distópica de Meados do Século XX. PUC: Porto Alegre, 2011.
ORWELL, George, 1984 (13ª Impressão): Companhia das Letras. São Paulo, 2013.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários: Editora ática: São Paulo, 2007.

ZAMYATIN, Yevgeny, Nós.

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